AÇÃO DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA
DIA D SOBRE SAÚDE MENTAL
Este projeto de extensão universitária tem como objetivo promover a conscientização, a prevenção primária e o acolhimento inicial da comunidade acadêmica e externa diante dos impactos biopsicossociais decorrentes do vício em apostas eletrônicas de quota fixa (bets) e jogos de azar online. Por meio de intervenções dialógicas, desmistificação de estigmas e orientações técnicas acessíveis, o corpo discente de Psicologia atuará no mapeamento de demandas de sofrimento mental e no direcionamento de indivíduos e núcleos familiares aos serviços da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e mecanismos de proteção vigentes no país.
LUDOPATIA
O termo ludopatia resulta da fusão entre ludus (latim: jogo, brincadeira, recreação) e pathos (grego: afeto profundo, paixão desmedida, sofrimento, doença). Na prática clínica atual e nos manuais internacionais de saúde mental, transcendeu a antiga e equivocada classificação como simples transtorno do controle de impulsos. Hoje compreende-se como uma genuína dependência comportamental, adicção não química plenamente estabelecida, caracterizada pelo engajamento persistente, repetitivo e desadaptativo em apostas, apesar dos severos prejuízos psicossociais, econômicos, ocupacionais e interpessoais contínuos.
Reposicionamento Nosológico Formal
DSM-5 e DSM-5-TR
A quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5/DSM-5-TR), da Associação Americana de Psiquiatria (APA), reposicionou o transtorno no capítulo “Transtornos Relacionados a Substâncias e Transtornos Aditivos” (código 312.31). Este marco reconheceu formalmente que os padrões neurocognitivos, expressão comportamental e manifestações clínicas do jogo patológico espelham fielmente as dependências químicas clássicas.
CID-11
A Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID-11), da Organização Mundial da Saúde (OMS), codifica a condição sob a rubrica 6C50 (Transtorno do Jogo), distinguindo:
- 6C50.0 — Transtorno do Jogo predominantemente offline
- 6C50.1 — Transtorno do Jogo predominantemente online (plataformas de apostas de quota fixa e cassinos digitais algorítmicos, popularmente conhecidos como bets)
Quadro Clínico e Características Sindrômicas
A ludopatia define-se pelo:
- Comprometimento progressivo no controle sobre o comportamento de apostar
- Priorização do jogo sobre atividades vitais e responsabilidades diárias
- Continuidade ou escalada do comportamento apesar das consequências adversas documentadas
Não representa mera falha volitiva ou traço de fraqueza moral, mas configura um transtorno neurocomportamental crônico e recorrente. O sofrimento é amplificado pela ubiquidade das plataformas digitais, acessíveis ininterruptamente via dispositivos móveis, que desmantelam barreiras geográficas, temporais e sociais que outrora continham o avanço das modalidades tradicionais de apostas.
Diferenciação Clínica: Jogo Recreativo, Problemático e Patológico
Jogo Social ou Recreativo
Situa-se no extremo funcional do continuum. Caracteriza-se por:
- Limites voluntários e rigorosos de tempo e dinheiro
- Aposta como despesa de entretenimento pontual
- Ausência de perturbação emocional significativa frente a perdas
- Preservação íntegra das esferas familiar, ocupacional e social
Jogo Problemático
Representa um estágio intermediário de risco ou subsindrômico, marcado por:
- Primeiras fricções decorrentes do hábito
- Pequenas omissões orçamentárias e ocultação ocasional de valores apostados
- Sentimentos incipientes de irritabilidade, culpa e pensamentos recorrentes sobre apostas
- Períodos de refreamento ainda presentes, mas com quebras ocasionais dos limites autoimposto
- Enfraquecimento gradativo dos mecanismos de autorregulação executiva frente a gatilhos ambientais
Jogo Patológico (Transtorno do Jogo)
Localiza-se no polo francamente nosológico, caracterizado por:
- Colapso generalizado da homeostase biopsicossocial
- Fissura (craving) intensa e busca desenfreada por recuperar perdas (chasing)
- Endividamento descontrolado e desintegração de vínculos de suporte
- Dissociação completa entre o ato de jogar e qualquer noção genuína de lazer ou prazer
- Papel compulsivo de enfrentamento desadaptativo contra estados emocionais disfóricos
- Necessidade imperativa de mitigar sintomatologia de abstinência psicológica